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domingo, 28 de junho de 2015

Maria de Lourdes Simões de Carvalho
O Império e o Velho do Restelo
Conheci a Maluda no dia em que chegou de Moçambique; trazia a alma dilatada pelos grandes espaços africanos, guardava na memória as cores vibrantes e o gosto intenso das especiarias da Índia onde nasceu; eu albergava preconceitos contra o terceiro mundo, incensava Berlim e Paris, pulsava sintonizada com Londres. Maluda encarnava o espírito da expansão marítima, eu aconselhava as caravelas a ficar em terra. O encontro foi no Restelo. O tempo provaria que não foi por acaso.
Em Portugal, Maluda tomou de assalto o coração das pessoas, tornou-se um pólo aglutinador de amigos, converteu a sua casa num centro que varreu com um sopro de liberdade e de inconformismo o sufocante meio social da Lisboa de então.
Os mais afortunados provaram a genuína cozinha goesa e conviveram com cantores, músicos, poetas, escritores, artistas, viajantes e boémios pela mão da pintora. Todos nós aprendemos a valorizar o património construído quando Maluda transpôs para as telas a matriz de uma arquitectura idealizada que se repete, dos confins do Brasil às costas de África, da Índia a Macau, como uma poética e silenciosa impressão digital da cultura lusófona.
Depois de Goa e Lourenço Marques, Maluda ancorou-se em Lisboa e criou raízes na Europa; eu fui para os Estados Unidos, mais tarde parti à descoberta do maternal bafo africano, rendi-me aos ritmos estonteantes de Salvador da Baía, sucumbi ao fascínio das míticas costas do Malabar e ao exotismo do oriente onde nasce a luz. Muitas vezes reconheci, no casario edificado pelos portugueses no mundo, o inconfundível traço comum que Maluda captou e consagrou. Nas peregrinações por terras do Sul, entendi o encantamento de Maluda pela Europa; por seu lado, a pintora, com o olhar fundo de quem vem de longe, ensinou a ver, na arquitectura tradicional, a pegada da cultura lusa que se expandiu por vários continentes.
A herança partilhada pelos países de língua portuguesa desmente a tese do Velho do Restelo, que se opunha às descobertas invocando os perigos da aventura marítima e o muito que havia a fazer em terra. Ousar é o maior legado dos heróis do mar. Ousar foi o que Maluda mais fez na vida.
No ano em que Iroshima e Nagasaki foram aniquiladas Maluda vivia em Goa. Pouco depois do apocalipse nuclear, a Índia, jóia da coroa do Império britânico, tornava-se independente num calamitoso mar de sangue; na Europa, ergueu-se uma cortina de ferro que dividiu o mundo em duas partes incomunicáveis. Hitler e Mussolini desapareceram; outros déspotas massacravam os povos como Estaline e Mao.
Depois de a guerra acabar, deixando um rasto de dor, destruição e morte, a menina de olhos enormes que absorviam o mundo como uma esponja, foi para Lourenço Marques. Uma dúzia de anos mais tarde, nova ameaça letal pairava sobre a humanidade com a instalação, em Cuba, de mísseis nucleares soviéticos apontados aos Estados Unidos.
Na adolescência, Maluda queria dedicar-se à música; depois de visitar Florença, soube que a sua vocação era pintar. Iria prescindir de constituir família para construir, obsessivamente, harmonias geométricas em aglomerados humanos ao abrigo da sanha dos tiranos. Deliberou pensar pela sua cabeça sem enfeudamentos a modas, escolas ou galerias. Optou pela arte de homenagear a utopia. Ousou ser livre.
Um dos primeiros óleos que pintou revela um ser que se interroga sobre a natureza humana; é uma composição ambígua, de um lirismo onírico pungente, que pode ser lida como velas de embarcações que se espelham nas águas ou como uma trindade essencial reflectida num mar de enganos.
A pintora enveredaria por formas perfeitamente delineadas, cidades expurgadas de crateras de bombas, de atentados estéticos, de formas circulares e de seres humanos, como se Maluda tivesse escolhido ser uma observadora de imaculados cenários aparentemente silenciosos, mas que encerram harmonias gritantes a quem adivinha, na cor, a vibração das ondas de luz encarceradas nas formas.
Uma manhã, Maluda telefonou-me, perplexa: pedia ajuda para decifrar o significado de um sonho enigmático  tinha-se visto a pairar muito acima da Terra e arremessava uma espécie de dardos que explodiam em som e luz quando atingiam os alvos, lá em baixo.
Acredito que essa visão seja a interpretação autêntica da sua pintura: a percepção da violência intrínseca que se alberga nos seres humanos compelia-a a pintar rostos serenos, casarios protectores e janelas por onde se espreita para uma dimensão interior que nos escapa e de onde se avista um mundo que não se entende.
Os admiradores da sua obra viam nela uma narrativa complexa sobre a vida e sobre a morte que mascara uma angústia profunda e a procura incessante de paz, conquistada a pulso, por meios que a razão não alcança.
Pintou mais de duzentos óleos, centena e meia de retratos, fez desenho, guache, logótipos, baralhos de cartas, tapeçaria, selos galardoados com prémios mundiais; expôs a obra em Portugal e no estrangeiro; teve o mérito inestimável de chamar a atenção para o valor estético do património construído. Dez anos após a sua morte, Carlos Ribeiro, sobrinho da pintora, é o promotor deste livro que pretende recordar a obra de uma artista que foi aclamada por eruditos, procurada por coleccionadores de arte, teve um clamoroso êxito junto do público e um lugar proeminente na sociedade portuguesa.
Carlos pediu-me um depoimento sobre a tia: estas linhas não são uma biografia, são apenas um testemunho da impressão que a pintora causava nos amigos e que muda, naturalmente, consoante os olhos do observador. Haverá tantas Maludas quanto as centenas de amizades que granjeou ao longo da vida.
Referir o “Império e o Velho do Restelo” é convocar uma metáfora sobre o confronto entre o pensamento retrógrado e a expansão da consciência que Maluda, a muitos títulos, protagonizou. Também alude ao olhar treinado em culturas de diferentes continentes com que examina o mundo e o reconstrói idealmente. O império é um patamar sensorial mais apurado a que Maluda ascendeu e de onde se enxerga mais longe.
Das costas do Malabar à foz dos rios Maputo e Tejo
As vicissitudes da carreira militar levaram o jovem Carlos Ribeiro à Índia portuguesa. Aí se casou com uma senhora de uma família portuguesa radicada em Goa há mais de dois séculos. Palmira Lobato Faria Lopes Pereira e Carlos Ribeiro tiveram três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Maluda abriu os olhos para a vida em Goa, território do tamanho do Alentejo, perdido no sub continente da majestosa Índia onde Gama viveu e onde se falava português. Na terceira década do século XX, Goa era um local adormecido e plácido, onde só as vacas, nas suas andanças pelas estreitas e povoadas estradas, pareciam ter objectivos determinados. Hindus e cristãos conviviam sem problemas e sem diálogo, o ensino era sonolento e Maluda estiolava entre o calor asfixiante da estação seca e as torrentes de água que nas monções alagam impiedosamente as ruas da capital, Pangim, também chamada de Nova Goa.
A mãe de Maluda contava que antes das grandes chuvas abasteciam a dispensa e despediam-se dos amigos: as ruas ficavam intransitáveis, o quotidiano era insuportável, os meses arrastavam-se, baratas gigantes tomavam de assalto as casas, a convivência cessava. Para uma menina ávida de aprender, de observar e de interagir, a infância foi um penoso desterro mitigado apenas pelo prazer de degustar os sabores apoteóticos da fusão da cozinha portuguesa com os temperos da Índia: as feijoadas, o sarapatel, o baji puri, o caril de caranguejo, os achards feitos pela mãe ficaram célebres.
Não admira que tenha hibernado, de alma e coração, durante a permanência em Goa, impermeável ao esplendoroso património espiritual da Índia. Só muito mais tarde Maluda faria as pazes com esse mágico continente.
Ao chegar a Moçambique e deparar com um ensino mais exigente, a vivacidade social, a relativa amenidade do clima, a variedade de opções desportivas e culturais, Maluda mediu o impressionante fosso que separava a modorra de Goa da efervescência de Lourenço Marques. Ficou ressentida, chocada e estimulada. Com a capacidade nata de adaptação e o forte instinto de competição que possuía, dedicou-se a anular esse abismo. Em pouco tempo era a coqueluche de Lourenço Marques; mais tarde, em Portugal, seria procurada à exaustão pela televisão e pela imprensa escrita para emitir opinião sobre os mais diversos assuntos.
Desde a instalação em Lourenço Marques, em 1948, até partir para Paris para estudar na Grande Chaumière, decorreram anos essenciais em que Maluda moldou o futuro: matizou a estrita educação católica recebida em Goa, compaginou os estudos com o desporto, aprendeu piano e desenhava por necessidade orgânica, segundo a sua própria expressão. Acabado o ciclo liceal, onde teve como colega Otelo Saraiva de Carvalho, começou a trabalhar, proclamou a independência, acreditou que as artes plásticas eram uma paixão e a música o seu destino último. Era campeã de pingue-pongue, ganhava rally papers, em tudo onde se metia tinha de ser a primeira.
Também se apaixonou pelo cinema; uma tarde, tinha catorze anos, o arrumador conduziu-a ao camarote destinado às autoridades por a ter confundido com a filha do governador. Esta entrou pouco depois; olharam-se surpreendidas com a flagrante parecença física e ficaram amigas. Maluda tornou-se cliente assídua do camarote oficial. Muitas décadas depois, numa viagem que fiz com a pintora ao Maputo, conheci a outra protagonista desta história; ainda se riam da desorientação do arrumador que nunca conseguiu distinguir qual era a filha do governador e qual era a sósia.
No tempo da segunda guerra mundial, uma colónia italiana importante expatriou-se em Moçambique, fugida do regime de Mussolini; depois da independência, alguns desses italianos errantes, como Niki Benini refugiaram-se em Lisboa, reforçando o grupo que frequentava a casa de Maluda. Assim que terminou os estudos liceais empregou-se na Guérin de Lourenço Marques, representante da Volkswagen; depois secretariou o príncipe florentino Giovanni Corsini, que tinha a representação da Fiat; Maluda entrou no ciclo familiar de Ada e Giovanni Corsini, pela mão dos quais conheceria Itália; com o apurado ouvido para a música, aprendeu italiano, aperfeiçoou o inglês e o francês, línguas que viria a falar fluentemente.
Eça de Queirós criou uma personagem hilariante a quem coube a pasta das colónias e que supunha Moçambique na costa ocidental de África. Quando o corrigiram, proclamou que a situação geográfica da colónia era irrelevante para o bom desempenho do cargo. Enganava-se redondamente. No século XX, o quadro legal em vigor qualificava os que nasciam na Metrópole de portugueses de primeira; os nascidos no Ultramar eram portugueses de segunda. Enganava-se redondamente.
Nos territórios ultramarinos, havia gente ousada, empreendedora, criativa. Angola tinha diamantes e petróleo; Moçambique era um território prestador de serviços com considerável potencial de crescimento; as grandes potências cobiçavam as colónias e instigavam a revolta no seu interior. No ventre do império germinava o irreversível embrião das independências. Viviam-se tempos de crescimento económico em Portugal e no Ultramar; uns investiam em fomentar a riqueza, outros em atear as sementes da discórdia. Nuvens de mudança acastelavam-se sobre as terras onde se falava português e iriam atingir em cheio a família de Maluda. A tempestade eclodiu mais tarde.
Em 1957, a cidade de Lourenço Marques, banhada pelas águas azul-cinza do Índico, de longas e amplas avenidas bordadas de azáleas, conhecia tempos prósperos com uma acentuada influência da África do Sul, onde havia uma rígida separação entre raças. Sérgio Kamal, colega de Maluda na Guérin, cimentou com ela uma amizade de irmão: depois da independência de Moçambique, tornou-se um homem de negócios, cliente dos grandes hotéis, íntimo dos ministros dos estados africanos francófonos e anglófonos. Em Lisboa, gostava de perguntar, ironicamente, referindo-se a si mesmo: ”Aceitam pretos?” Um dia perguntei-lhe por que razão gostava tanto de Maluda. “Foi a primeira branca que em Lourenço Marques ousou convidar-me para dançar!” respondeu, com uma gargalhada.
Em Portugal, a televisão iniciava emissões experimentais. Eram imagens intermitentes, tão monótonas quanto as frequentes interrupções, tão baças como as promessas de que a emissão seguiria dentro de momentos. Seria no futuro um factor poderoso para acelerar a globalização. Maluda e a sua obra foram objecto do carinho e do interesse do público graças, também, à televisão e aos inúmeros programas em que participou, ou foi vedeta exclusiva.
Na piscina do Polana, nesse ano da inauguração, em Lisboa, da caixa que revolucionou o mundo, Maluda conheceu Maria José Almada, Miucha para toda a gente, filha de Luís Vaz de Almada, director da Sociedade Agrícola Incomati e frequentador habitual do atelier da pintora. A Incomati era proprietária de uma gigantesca plantação de cana-de-açúcar em Xinavane; a administração tinha à sua disposição uma casa agradável, cercada por uma varanda de onde se avistavam os jardins, os courts de ténis e os imensos canaviais, nas margens do rio Incomati; depois das curtas bátegas de água cheirava a terra e a flores; a noite caía de repente e o sol afogava-se no horizonte num mar de chamas, o Cruzeiro do Sul que orientou os navegadores portugueses cintilava quase ao alcance da mão. Nos anos do fim do império, Maluda e Miucha passaram em Xinavane muitos fins-de-semana. Jogavam ténis, andavam a cavalo, iam nadar nas águas quentes da baía deslumbrante do Bilene. Neste idílico cenário tropical, com o pai Almada e os filhos e com Jorge Arnoso, Maluda tecia, inconscientemente, os fios de uma rede de amizades que teriam uma importância determinante na sua vida.
A descoberta, em 1959, que o irmão Carlos tinha um tumor galopante na cabeça deixou Maluda e a família fulminados de dor. A família reduziu-se aos pais e ao irmão Eduardo, sósia fiel do toureiro espanhol Manolete. Com o desenrolar do tempo, as misteriosas malhas do destino provariam que a doença que vitimou Carlos ia perseguir implacavelmente Maluda, o pai, o outro irmão e muitas das suas amigas.
Era tempo de pisar a Europa que a cativaria para sempre. Magoada pela perda recente do irmão, Maluda visitou Roma, Veneza e Florença; aí soube, sem sombra de dúvida, que pintar era o seu destino. Foi a Paris e rematou a viagem em Lisboa, onde esteve uns dias. À noite ia ao palácio de Xabregas, na Calçada do Marquês de Abrantes, para confraternizar com Miucha Almada, já regressada de Moçambique. Maluda refazia, ao invés, a rota da Índia, do longínquo Malabar ao rio Maputo, da costa oriental de África ao Tejo de onde as caravelas partiram para a aventura marítima.
Depois de tropeçar, em Florença, com a estonteante beleza das descomunais esculturas dos deuses que se acotovelam, familiarmente, com os transeuntes na Piazza della Signoria; depois de contemplar, na Galleria degli Uffizi, a mestria dos génios da pintura, Maluda obliterou o penoso deserto goês, intuiu que Lourenço Marques seria um compasso de espera, prometeu aprender a pintar numa instituição de renome. Tinha vinte e seis anos. Passado pouco tempo, era aluna da prestigiada Academia Grande Chaumière de Paris.
Na ressaca do embate com o património cultural da Europa, dedicou-se, de alma e coração, a pintar; explorou os dons natos, sem apoios, nem orientações pedagógicas que inexistiam em Lourenço Marques. João Raposo de Magalhães, que em 1958 foi dirigir o Banco Nacional Ultramarino, encantado com o talento da pintora, incentivou-a a prosseguir. Viria a ser outra das âncoras de Maluda em Lisboa. O grupo que acudia ao atelier integrava pessoas de todas as faixas etárias: o pai Luís Almada e os filhos, o pai Jorge Arnoso e a filha Helena, João Raposo de Magalhães e os filhos, eram indistintamente amigos de Maluda; Olga Donato, Vera Cabral, José Freire, Teófilo Esquível, Alberto Salema Reis, Madalena Gama, João Maria Tudella, João Ferreira-Rosa frequentavam o atelier. Maria João Seixas, adolescente, juntava-se com naturalidade aos mais velhos, como Manuel Fevereiro e Manuel Luís Pombal.
Acompanhada do marido César Seabra, Amália Rodrigues exibiu-se mais de uma vez em Lourenço Marques; ambos selaram com Maluda laços de amizade que se reforçaram em Paris e continuaram em Lisboa até ao ano em que Maluda e Amália morreram com seis meses de intervalo.
Nas margens do Índico, junto à foz do rio Maputo que banha uma cidade que muda de nome sem perder o encanto, Maluda criou um núcleo de amigos que se consolidou em Lisboa e em Paris e se alargou a Londres, Lausana e Rio de Janeiro. A quase todos pintou o retrato, uma galeria de mais de centena e meia de rostos que, num futuro remoto, terão como elo de ligação o olhar perscrutador da pintora. Talvez nessa época sejam reconhecidos como companheiros de destino que escolhem encarnar em simultâneo para interagirem e decifrarem em conjunto o sentido da vida.
O emprego e as encomendas permitiam-lhe manter o atelier e suportar as idas ao cinema, aos restaurantes ou às cervejarias onde o camarão era um complemento gratuito das bebidas. Havia tertúlias sobre poesia, literatura e arte. Havia escapadelas a Joanesburgo para compras e para reforçar o contacto com a cultura anglófona. Havia também o cosmopolita Hotel Polana, onde sul-africanos endinheirados e cidadãos do mundo passavam fins-de-semana ou férias e em cujo bar, mais tarde ou mais cedo, toda a gente se encontrava. Aqui, Maluda fez amizade com a actriz Anne Todd, então casada com David Lean, o genial realizador de Lawrence da Arábia, Pontes do Rio Kwai e Passagem para a Índia.
Maluda tornou-se um íman social. O atelier transformou-se num centro de convívio onde desenhava, pintava, tocava viola, cantava, bebia e os amigos compareciam para comungar com ela desse dom de glorificar a vida como um fluido raro.
Em 1961, o exército indiano conquistou Goa. Em África rebentou a guerra colonial. Nesse ano, Maluda integrou uma exposição com outros três artistas que se intitulavam “Os Independentes”, designação que provou ser um prenúncio da qualificação que a pintora se bateria para manter e defender ao longo da sua vida como artista. Até 1963, “Os Independentes” organizaram uma mostra por ano.
Entretanto, a Fundação Calouste Gulbenkian instituíra um serviço de relações com os territórios ultramarinos. Numa estadia em Lourenço Marques, em 1962, o pintor Francisco Relógio viu a exposição e, por carta, transmitiu à Fundação Gulbenkian a funda impressão que lhe causou o talento latente nos retratos de Maluda, que denotam “uma força que destrói e domina a forma exterior para nos entregar uma imagem que se impõe pela presença humana.”
Acredito que algumas pessoas procuravam Maluda mais como um meio de melhor se entenderem a si mesmas, do que para ter o retrato pendurado na sala.
Um ano mais tarde, a Fundação Gulbenkian outorgou-lhe uma bolsa de curta duração para estudar desenho e pintura em Lisboa. Durante três meses foi discípula do mestre Roberto Araújo e fez as primeiras amizades “metropolitanas”. O atelier improvisado onde Maluda aprendia a livrar-se dos tiques de autodidacta era na Rua dos Remédios à Lapa, em casa de Miucha Almada, então casada com Manuel Luís Gomes. Dormia no Restelo, em casa de Margarida e José Bastos, arquitecto e autor do projecto da sede do Banco Nacional Ultramarino em Lourenço Marques.
Foi nessa época que conheci Maluda, João Maria Tudella e João Ferreira-Rosa: um a um, o grupo de Lourenço Marques ou regressava a casa, ou tomava pela primeira vez contacto com Portugal, também chamado de “puto” para realçar a diminuta dimensão territorial da metrópole.
O contacto com Lisboa foi muito favorável para a jovem pintora, tímida, reservada e um tanto intimidada com o ambiente menos espontâneo da sociedade portuguesa. As pessoas deixavam-se cativar pela sua personalidade enigmática e rendiam-se ao talento que se adivinhava nas reproduções fotográficas dos óleos e retratos pintados em Lourenço Marques que Miucha Almada insistia em mostrar.
João Ferreira-Rosa levou Maluda à quinta de São Sebastião, em Sintra, onde conheceu Leonor Asseca, que seria um apoio precioso em Paris. Foi a casas de fado e locais castiços como a Tipóia, no Bairro Alto, o Estribo em Birre, o Cartola em Cascais. Conheceu Mercês Cunha Rego e João Braga. Visitou Amália e César Seabra na Rua de São Bento.
As luzes de Paris
Na sequência do estágio em Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian concedeu-lhe uma bolsa de estudos para frequentar a Grande Chaumière, em Paris, onde foi discípula dos mestres Jean Aujame e Michel Rodde. Nos primeiros tempos, viveu perto da Sorbonne, no Hotel Saint Pierre, sem elevador, com uma escada íngreme, por onde Maluda carregava, esforçadamente, as malas; havia apenas uma casa de banho em cada andar. José Augusto França também lá vivia, bem como dissidentes do regime de Salazar ou jovens que se negavam a combater em África. A pintora ouvia as conversas inflamadas dos revolucionários através das paredes finas do quarto.
Em Paris, recebeu encomendas de retratos: pintou Ruy Brito e Cunha, Cônsul-Adjunto de Portugal em Paris, o príncipe Michel de França, José Augusto França e Fernão Vaz Pinto, então na delegação de Portugal junto da NATO.
Maluda e Ruy Brito e Cunha jantavam com frequência nos restaurantes das Halles, iam às discotecas, ao New Jimmy’s ou a Chez Castel, deram uma saltada a Deauville, foram às famosas e ruidosas 24 horas de Le Mans. Sentia, muitas vezes, saudades da família e dos amigos, das noites estreladas de Xinavane e até da provinciana boîte do Polana, animada por Epaminondas, Mário Simões ou os Cinco de Roma.
O clã de Lourenço Marques mudou, repentinamente, o modo de vida de Maluda; em 1964, Jorge Arnoso veio para Paris com um cancro de que viria a morrer: as filhas Helena e Maria do Carmo fizeram-lhe companhia. Na mesma época, no Hospital Americano, estavam internadas Helena Taborda Ferreira e sua mãe, a Viscondessa de Asseca, que recuperavam de um grave acidente de automóvel. Helena Arnoso pôs Maluda em contacto com as doentes; a pintora mudou do Hotel Saint Pierre para uma cave na Rue Lord Byron, cedida por uma amiga dos Assecas: tinha uma cama na sala; a casa de banho era na cozinha. Mas era em Paris: o cubículo parecia um palácio. César Seabra e Amália, que actuava no Tête de l’Art, outras vezes no Olympia, então dirigido pelo famoso Bruno Coquatrix, visitavam frequentemente a casa da Rue Lord Byron.
Na suite do Hotel George V, onde se hospedava, Amália pousou para o retrato que Maluda lhe fez; com os constrangimentos de tempo das grandes vedetas, só pousou para a cara. Leonor Asseca serviu, pacientemente, de modelo para o corpo de Amália.
João Raposo de Magalhães ia a Paris e nunca deixava de ir à Lord Byron; depois do jantar, voluntariava-se para lavar a loiça à mão. Entretanto, Leonor Asseca obteve uma bolsa de estudo da Fundação Gulbenkian para estudar artes decorativas. Maluda e Leonor arrendaram, a meias, um apartamento mais espaçoso na Rue Robert le Coin, em Passy. Outra grande amiga de Maluda era Merícia de Lemos, dona de vastas terras em Moçambique onde nasceu; era antiquária, galerista e poetisa com obra editada; tinha um apartamento magnífico na Avenue Montaigne e uma casa no Bairro Alto, em Lisboa. Os pintores António Dacosta e Manuel Cargaleiro eram amigos de Maluda, tal como o duo angolano Ouro Negro, que fazia furor em Portugal e se exibia com alguma frequência no Olympia; anos depois, já em Lisboa, Raul Indipwo tornou-se um frequentador habitual de casa de Maluda. Com o Duo Ouro Negro, num programa de televisão, Maluda, tocou viola e cantou Malaika, uma canção celebrizada por Myriam Makeba. Um amigo, encantado com a actuação, exclamou “que pena ela pintar!”
Maria Helena Vieira da Silva tinha o atelier em Yèvre-le-Chatel, nos arredores de Paris. Foi aí que Maluda conheceu a genial pintora, Arpad Szènes, seu marido, e Guy Weelen, seu representante. Com um arrepio de excitação, a menina que outrora execrava o intolerável deserto cultural de Goa, teve o gosto de apresentar Amália Rodrigues, a mais sublime e comovente das vozes, a Maria Helena Vieira da Silva, a pintora mais fundamente iniciada nos mistérios da alma. Em 1980, Vieira da Silva opinou: “Neste ano em que o mundo está mais consciente de um apocalipse do que jamais no passado (sempre juncado de apocalipses), cabe-me falar da pintura de Maluda. Os seus quadros são um hino, um louvor à vida, quer dizer à construção do abrigo humano.”
Maluda apaixonou-se pela obra de Rothko, frequentou exposições; o embaraço de escolher entre as mil opções parisienses punha em destaque a anemia cultural de Lisboa e a quase paralisia de Lourenço Marques.
Em 1964, a Fundação Calouste Gulbenkian organizou na Tate Gallery de Londres uma exposição denominada “Pintura e Escultura de uma década”. Maluda foi à inauguração e rendeu-se à fervilhante e cosmopolita capital britânica, onde mais tarde pintaria inúmeros retratos, entre os quais o de Rita Almada e de Isabel Eça de Queiroz.
Nesse ano, foi a Lourenço Marques fazer três painéis inspirados em desenhos maconde que iriam ornamentar o Banco Nacional Ultramarino. Em 1965, o irmão Eduardo, casado com Maria Isabel, alargou o pequeno núcleo familiar, com o nascimento de Carlos, que Maluda trataria como filho.
Nos quatro anos que viveu em Paris, ou apanhava boleia ou vinha a Lisboa num velho Volkswagen azul claro; a viagem pelas estradas perigosas e difíceis de uma Europa que ainda se recompunha da devastação da guerra demorava dois dias.
A 15 de Novembro de 1966, festejou os anos em Lisboa, com Amália e os Almadas na Taverna do Embuçado, casa de fados de João Ferreira-Rosa que desempenhou um papel idêntico ao do Hotel Polana em Lourenço Marques. Mais tarde ou mais cedo, toda a gente passava por lá, desde Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev ao ditador Somoza, do rei Humberto de Itália à rainha da Bulgária e à princesa Irene da Holanda, dos poetas Pedro Homem de Mello e José Carlos Ary dos Santos ao numeroso e heterogéneo grupo de amigos que viria a gravitar em torno de Maluda.
Ulisses fundou Lisboa, Maluda pintou-a
Depois das luzes de Paris, fulgurante capital da cultura, era tempo de a pintora errante escolher um domicílio permanente: elegeu a luz de Lisboa. Iria pintar a cidade e o Tejo à exaustão: mais de sessenta telas de casario de telhados cor-de-tijolo, amarinhando pelas sete colinas e a mancha azul do rio que se perde ou se confunde com a dimensão que se estende para lá do que os sentidos alcançam.
Em 1967 Maluda já podia comparar o tecido urbano lisboeta com algumas das mais deslumbrantes capitais europeias; em pano de fundo tinha ainda Goa, Lourenço Marques, outras cidades moçambicanas e da África do Sul e locais enfeitiçados como a Ilha de Moçambique, onde estiveram Camões e Gama, e que parece uma clonagem de Alcochete, com um toque exótico do oriente.
Todas as suas moradas eram, durante o dia, um local solitário de trabalho, com uma música apenas audível, onde Maluda desenhava ou pintava, por um imperativo orgânico irrecusável, como não se cansava de repetir.
Ao fim da tarde, as coisas mudavam: os amigos afluíam, invariavelmente sequiosos e estrepitosos; o atelier convertia-se num local animado onde se debatiam ideias, fazia-se música e cantava-se num ambiente boémio e despreocupado. Esta seria a imagem de marca inconfundível de Maluda: isolada no trabalho; sociável nos tempos livres; devotada à criação durante o dia, atenta aos amigos ao fim da tarde e pela noite fora, sempre com um cigarro ou um whisky na mão.
Até assentar arraiais na Rua das Praças, num apartamento arrendado a Leonor Asseca, Maluda peregrinou por ateliers na Rua Silva Carvalho, Travessa de Santo Ildefonso, Avenida da República e Rua da Palmeira. Só conheci este e o derradeiro dos seus poisos na Rua das Praças, mas recordo as histórias que Maluda contava do trágico percurso de drogas e álcool de Mayza Matarazzo, famosa cantora brasileira, sua amiga. Uma noite, depois de um concerto no Estoril, Mayza desmaiou no apartamento da Avenida da República e perdeu o voo de regresso ao Brasil, não obstante os esforços do marido para a reanimar.
Maluda tornou-se assídua da Taverna do Embuçado; havia noites que deviam ter sido registadas: cantavam Amália, Maria Teresa de Noronha, Alfredo Marceneiro, além dos fadistas da casa, João Ferreira-Rosa, João Braga, Celeste Rodrigues, Adriano Correia de Oliveira. Amália, no final da noite, incitava toda a gente a dançar modinhas da Beira Baixa, onde nasceu a mãe da fadista. A casa de António Duarte Silva, na quinta de Santa Catarina, na Figueira da Foz, era uma espécie de prolongamento do Embuçado aos fins-de-semana; Maluda era uma convidada habitual dessas confraternizações, onde acudiam Carlos Lacerda, que foi governador do Rio de Janeiro, e Juscelino Kubitschek de Oliveira, antigo presidente do Brasil e fundador da cidade de Brasília.
Em 1968, a guerra do ultramar recrudescia de violência, Salazar adoeceu, Marcello Caetano foi designado seu sucessor à frente do Governo.
Maluda apresentou, em 1969, uma exposição individual na Galeria do Diário de Notícias. Foi um êxito clamoroso. As encomendas choviam de toda a parte. Foi também o ano em que morreu o pai. No regresso de Lourenço Marques, mudou-se para um prédio na Rua da Palmeira; no apartamento ao lado vivia o poeta Ruy Cinatti, que apelidava os amigos de Maluda de “gadulhas” e nos oferecia folhas com versos seus que guardávamos como pérolas raras. Aqui pousei para o retrato que Maluda me fez. Amália estava no Brasil e deixou o gato Tomás à guarda da pintora; este passeava, ágil e soberano, pelo atelier ou dormitava aos pés de Maluda. No dia em que deu por concluída a obra – nunca deixava o modelo espreitar para a tela até estar acabada – Tomás saltou para o colo de Maluda, fixou a tela, depois olhou na minha direcção, eriçou o pêlo e projectou-se em arco até ao sofá onde eu estava, aterrou numa ficha eléctrica onde fez chichi; os fusíveis fundiram-se, o velho quadro eléctrico rebentou, deixando o atelier às escuras. Nas trevas, Maluda comentou que nunca tinha tido um crítico tão atento e tão exaltado. No final da vida limitou, drasticamente, a liberdade de movimentos com a adopção do Salvador e depois do Bernardo, dois gatos imponentes e inteiramente ditatoriais.
Fez o retrato de José Maria Caetano, depois de Ana Maria, sua irmã. O pai Caetano, entusiasmado com os resultados, quis ser também pintado por Maluda, para espanto dos antigos alunos que consideravam esta decisão incompatível com a solenidade que demonstrava nas aulas ou nas “Conversas em Família” que apresentava na RTP.
Marcello Caetano pousou, disciplinadamente, na sua residência particular em Alvalade. Radiante com o retrato, o Presidente do Conselho de Ministros sugeriu que Maluda convidasse um grupo de amigos para um jantar de inauguração; assistiram, entre outros, Ruy Cinatti, Miucha Almada e Manuel Luís Gomes. Maluda manteve o ar circunspecto; Miucha Almada teceu considerações sobre a primavera marcelista e nomeou campeão das liberdades José Pedro Pinto Leite que, pouco depois, desapareceu na Guiné em circunstâncias nunca apuradas. Apercebendo-se que Miucha colava epítetos a toda a gente, Marcello Caetano quis saber qual era a sua alcunha. “Caetaninho” respondeu ela. Quatro anos depois, na sequência de um golpe militar, Marcello Caetano exilou-se no Brasil, onde morreu. Moçambique mergulhou num longo e sangrento conflito interno; a família de Maluda refugiou-se em Lisboa.
João Raposo de Magalhães introduziu Maluda ao irmão Fernando, casado com Maria Luísa; a ambos pintou o retrato; são proprietários de Aljezur, um dos óleos mais surpreendentes de Maluda.
Em 1970, Maluda instalou-se em definitivo na Rua das Praças. José Mensurado, locutor da televisão, acabada a emissão, tocava à campainha para irem ao Stone’s, discoteca que Maluda adoptou como “leitaria de bairro.” Mensurado, também jornalista do jornal “O Século,” caiu no logro de acreditar que um grupo de pândegos mascarados de árabes, que se deslocavam num Rolls, jantaram no Tavares e anunciavam negócios chorudos, era digno de uma notícia exclusiva, febrilmente estampada na primeira página do jornal, com fotografia que não deixava mentir. O facto de Manecas Mocelek, director do Stone’s, ser o “chefe árabe” acarretou vários dissabores a Mensurado. Maluda pediu a António Duarte Silva para interceder junto do presidente da RTP, para minorar os estragos do falso furo jornalístico. Por essa época retratou outra estrela televisiva, Ana Zanatti. Quando a pintora procurou trabalho no Brasil, Ana fez-lhe companhia. Maluda voltaria mais três vezes ao Brasil: anos mais tarde, Ana Zanatti criaria raízes em Maracajaú, no paradisíaco nordeste brasileiro.
Não obstante as noitadas, Maluda levantava-se às sete da manhã e sentava-se ao cavalete. Preparava uma exposição individual na Fundação Calouste Gulbenkian. Fazia um intervalo para almoço, ritual que instituiu na Rua das Praças. Ruy Cinatti escolhia o fundo musical de acordo com a ementa; um dia explicou-me, com ar compenetrado, que costeletas de borrego eram obrigatoriamente acompanhadas de música barroca. Quando José Carlos Ary dos Santos vinha almoçar, havia borbulhas de humor no ar que quase eclipsavam o soberbo arroz de pato ou as perdizes de escabeche das quintas-feiras.
A pintora passava muitos fins-de-semana no Brejão, no baixo Alentejo, onde Amália e César tinham uma casa inundada de luz, de enormes janelas abertas sobre o mar. César Seabra, crescido no Rio de Janeiro, inteligente e espirituoso, era o mais encantador dos anfitriões; encontrava em Maluda e no seu grupo uma animação idêntica à dos cariocas. No Brejão, Amália pintava e Maluda cantava; não poucas vezes, discutiam acaloradamente sobre qual das duas cantava ou pintava melhor, sobre qual das duas era vedeta; ao almoço havia sardinhas assadas com salada de pimentos. Em Lisboa, Maluda ia todas as semanas à Rua de São Bento. Numa das estadias de Vinícius de Moraes em Lisboa, Amália ofereceu um jantar ao poeta brasileiro e convidou David Mourão-Ferreira, Natália Correia e Alain Oulman. Maluda foi tomar café. Gerou-se uma forte discussão com Natália Correia de que resultou uma relação duradoura e amistosa com a escritora de “Não percas a rosa”, que viria a animar as noites de Lisboa no célebre Botequim. Num outro jantar que Amália ofereceu a Marguerite Yourcenar, autora das extraordinárias Mémoires d’Hadrien, Maluda conheceu a escritora que esperava depois da morte “dormir um sono eterno”. Entre Amália e Maluda o debate era constante; engalfinhavam-se em defesa de posições extremadas e irreconciliáveis; às vezes eu pensava que a algazarra gerada no confronto de ideias ultrapassava os limites do razoável, mas na verdade era através do exercício do contraditório que Amália e Maluda cimentavam uma amizade indestrutível. Depois de Amália ser operada a um tumor na cara, deixou de fumar e ninguém ousava fazê-lo ao pé dela. Maluda refugiava-se, com o cigarro, no jardim da Rua de São Bento. Na Rua das Praças, na casa de jantar forrada com as telas onde fulguravam os voluptuosos frutos pintados por Maluda, Amália ficava sozinha enquanto todos se apinhavam na marquise para fumar. Quando Maluda adoeceu, vi na cara de Amália os sinais de uma quase intolerável dor de alma.
Em Nova Iorque, em 1972, assisti à implacável denúncia dos bastidores do caso Watergate que culminaria, em Agosto de 1974, com a renúncia do presidente Richard Nixon e a consagração da tese que a comunicação social tem o dever de expor a corrupção dos políticos, a usurpação do poder, ou a sua detenção por uma minoria. O regime português aproximava-se, a passos largos, do fim.
Em 1973, Maluda conheceu Luís Saragga Leal, que adquiriu um dos óleos mais importantes sobre Lisboa. Com a sua reconhecida paixão por pintura, Luís, anos mais tarde comprou uma propriedade no Alentejo chamada “Monte do Pintor”. Com Maluda, os Bobones e os Raposo de Magalhães, passámos lá fins-de-semana pantagruélicos entre as iguarias de Joaquim Silveira e os banquetes de Luís Saragga Leal. Hoje é presidente da Fundação PLMJ, que possui uma notável colecção de artistas portugueses.
Foi em 1973 que chegou, por fim, o grande acontecimento: a Fundação Gulbenkian apresentou, em simultâneo, uma mostra de escultura e de pintura; na grande sala de exposições temporárias podia admirar-se a obra de Rodin; nas salas de baixo, os óleos de Maluda. Quinze mil pessoas o fizeram. Marcello Caetano inaugurou as duas exposições; aplaudiu em particular Maluda, de quem era genuinamente fã e admirador. A aventura de pintar, iniciada nas costas do Índico, triunfava, oficialmente, em Lisboa. Maluda exultou.
Um ano mais tarde, atravessaria um período negro, sem inspiração, sem trabalho, sem encomendas, sem perspectivas de futuro. Mas isso não a demoveu do caminho de continuar a pintar Portugal, como se fosse seu dever legar um testemunho, vastamente documentado, sobre a luz radiante que anima este país que, ora ousa expandir-se pelo mundo, ora implode em fundas depressões.
E o império se cumpriu
Na rua das Praças, a revolução de 1974 foi comentada, saudada, reprovada e celebrada consoante a visão de cada interveniente; no seu jeito liberal, boémio e acolhedor, Maluda oferecia bebidas; da enorme janela, via-se o Tejo a correr como a veia pulsante que vivifica um país cuja identidade se forjava há séculos de mais para que um golpe militar cancelasse a história ou mudasse radicalmente a natureza do seu povo.
Os mais avisados, como Carlos Lacerda, que prefaciou o livro Portugal e o Futuro do general António de Spínola, advertia para os dias negros que nos esperavam. Eu acreditava que a libertação é o fim último da vida. A liberdade ficou, por uns tempos, na gaveta. Maluda recebeu a encomenda de uns posters sobre os heróis do momento: Mário Soares, Álvaro Cunhal, Costa Gomes e Sá Carneiro. Tornou-se óbvio que o PREC, processo revolucionário em curso, preferia incensar a massificação. Contra este estado de espírito, Natália Correia implantou, na Graça, um bastião de resistência à tirania do politicamente correcto imposto pelo PREC: sob a batuta da escritora, fervilhava no café concerto “O Botequim” a anarquia mais delirante e mais provocatória. Cantavam-se hinos subversivos que o Sr. Ávila martelava no piano e a actriz Maria Paula entoava, com convicção. O Botequim era um barómetro das flutuações da política. Quando Mário Soares estava em baixa, ia ao Botequim inteirar-se dos últimos boatos. António Vitorino de Almeida, então Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal em Viena, telefonava à Maluda, da Áustria, para avisar do dia e hora em que chegava ao aeroporto. Eu passava a recolhê-los e marchávamos sobre o fortim dos insurrectos; não poucas vezes entravam uns grupelhos que se insurgiam contra Natália Correia e sovavam, invariavelmente, o maestro Vitorino de Almeida.
Em 1975, a família de Maluda mudou-se para Portugal. A mãe, o Eduardo, a Maria Isabel e o Carlos estiveram em Faro uns tempos. Mais tarde vieram para Lisboa. O Eduardo morreria em 1984.
A revolução provocou uma recessão pronunciada no mercado da arte. No meio dos negócios, das profissões liberais, da indústria, muita gente foi presa sem culpa formada, entre os quais o empresário Manuel Gonçalves; os revolucionários exigiam que pedisse desculpa em abstracto, ao que ele respondia “Não tenho porquê”. Neste impasse permaneceu preso dois meses. Os operários, indignados, vieram a Lisboa reclamar que soltassem o patrão. Como era coleccionador de arte, acreditei que gostaria de conhecer Maluda. No atelier, contemplou, aparentemente desinteressado, as telas, fixou-se na lendária vista sobre Lisboa enquanto bebia o seu whisky. Despediu-se e, já no elevador, bateu com a mão na testa, regressou ao atelier e apontando para os quadros disse: ”Esqueci-me: quero aquele, aquele e aquele.” Uns dias antes, Otelo Saraiva de Carvalho, colega de liceu em Lourenço Marques, então comandante do COPCON que ordenara a prisão de Manuel Gonçalves, tinha almoçado em casa de Maluda. Para alguém que procurava obsessivamente a fórmula secreta da suprema harmonia, era tempo de tentar a sorte no Brasil.
Mais uma vez, a pintora, errante, partia em busca de outra coisa. No Rio de Janeiro, Adolfo Bloch, poderoso mogul da Manchete, influente empresa de comunicação, adquiriu para o museu cinco telas de Maluda. No Rio, passou uns tempos em casa de Ana Maria Adão e Silva de quem pintou o retrato, foi a Búzios, a Angra dos Reis, reencontrou os Raposo de Magalhães, João, Fernando e Maria Luísa. Mas as saudades de Portugal levaram a melhor. No regresso a Lisboa, a Fundação Gulbenkian atribuiu-lhe uma bolsa de investigação. Passou um tempo em Londres, de novo em casa de Ana Maria Adão e Silva, onde encontrou Adriano Moreira. Fez retratos e desenhos a tinta-da-china.
Depois de conviverem em Lourenço Marques e Paris, Maluda e Helena Arnoso desenvolveram, em Lisboa, uma relação diária; Helena tinha um velho Volkswagen cujo motor gasto e exasperado, fazia “Tchaca-tchaca.” Com um sentido de humor muito próprio, Maluda crismou-a com o soluço do motor, que soava a lengalenga africana. Foi madrinha de casamento de Tchaca-Tchaca, que se casou, em 1976, com Manuel Bobone, na Quinta da Regaleira em Sintra. Helena e Maria do Carmo Arnoso foram secretárias, amigas, colaboradoras, companheiras de viagem e de férias de Maluda. Foram, na verdade, a sua segunda família. Como de costume, um laço forjado em Lourenço Marques, criou raízes e floresceu em Lisboa.
Em 1977, Maluda foi pela primeira vez a Madrid; chegámos no meu velho carro, pelas estradas de pesadelo de um país anacrónico e periférico, à fronteira do Caia; revistaram-nos como se fôssemos terroristas, inspeccionaram o automóvel como se fosse um tanque, fiscalizaram as divisas como se fossem bombas. Incomodada, Maluda, já em Badajoz, dirigiu-se a uma loja para onde se transferiam fundos; ignorando que os espanhóis não falavam línguas, perguntou “Do you have an envelope addressed to me?” O empregado arregalou os olhos de espanto. Vencidos os arcaísmos transfronteiriços, prosseguimos a viagem até Madrid pelas vias obsoletas da época para celebrar os anos de Maria do Carmo Vaz Pinto, com Maria João Sousa Machado, Lourenço de Almeida e Maria Antónia e Nikias Skapinakis. A pintora movia-se em Madrid como se fora em Marte: com a maior das precauções. O castelhano era chinês e os espanhóis, o pior dos inimigos, segundo aprendera na escola. Poucos anos depois, Portugal e Espanha aderiram à CEE, hoje União Europeia, baseada na livre circulação de pessoas, serviços, bens e capitais. As velhas fronteiras da Europa das nações continuavam, uma a uma, a desmantelar-se.
Maluda decretou umas curtas tréguas a Espanha quando João Braga organizou uma excursão a Sevilha. A pintora, Helena e Maria do Carmo Arnoso, Manuel Bobone e eu integrávamos um grupo de trinta viajantes. Partimos das imediações da Torre de Belém, como outrora os Dias e os Gamas. O motorista do autocarro anunciou, categoricamente, que era proibido fumar a bordo. Maluda acendeu, de imediato, um cigarro e perguntou “Não se bebe nada?” Como por milagre, Maria do Carmo Arnoso fez aparecer gelo e garrafas de whisky. Acabada a viagem, tornou a classificar Espanha de “país não grato”.
Na volta de Madrid, entre a numerosa correspondência, havia uma carta de Sigrid e Fritz Jahns, um casal alemão que habitava Lausana. Viram a exposição da Gulbenkian e queriam conhecer a autora das telas. Começou o período suíço de Maluda, as estadias em Lausana, onde pintou a família Jahns, em Berna, de que fez dois óleos, as idas ao Algarve, onde os Jahns tinham uma casa à beira-mar a cuja inauguração Maluda, Amália e todo o grupo assistiram. No Brasil, onde foi com os Jahns, pintou Salvador da Baía, que sobressai como uma curiosa mancha luso-tropical. Em 1985, Maluda pendurou uma obra de Claude Monet da famosa série de nenúfares em cima de um fogão antigo que servia de bar. Era dos Jahns e aguardava que eles lhe dessem um destino. Nunca fui tão assídua da Rua das Praças!
Durante anos, Maluda foi com os Jahns ao Festival de Salzburg. Combinava gostos eruditos com a paixão pelo futebol: fã do Benfica, foi a Marselha com Ana Maria Adão e Silva, Jorge de Brito, então presidente do clube das águias, e Teresa Schmidt, outra benfiquista furiosa. O Benfica foi derrotado e Maluda roubada no estádio. Recuperou a carteira mercê de uma intervenção rocambolesca de Jorge de Brito. Quando o Marselha veio a Lisboa, Bernard Tapie, presidente do clube francês, desdenhou da capacidade combativa dos portugueses. O Marselha foi eliminado. Maluda rejubilou. Indefectível na defesa encarniçada do país e do clube da Luz, deparou tempo depois, num restaurante em Cannes, com Tapie. Mimou-o com um arrazoado temível. Quando o Benfica e o Milão disputaram a final dos campeões europeus, em Viena, Maluda viu o jogo em casa de João Braga, sportinguista inflamado. O Benfica perdeu; apesar de os benfiquistas estarem em maioria  Maluda, Nicolau Breyner, Filipe de Brito e Carlos Zel, que gravou um fado intitulado Maluda – a discussão explodiu, medonha.
A pintora tinha-se entretanto embrenhado no puzzle das janelas que reflectem, por entre inumeráveis espelhos, uma sequência ambígua, onde não se destrinça o que é real e o que é reflexo ou aparência. Em 1981, as Editions du Manoir publicaram um livro sobre a obra de Maluda, com prefácio de Vieira da Silva e textos de Simone Frigerio, Sigrid Jahns e Alexandre O’ Neill, que se refere ao novo período de Maluda nos seguintes termos: “Esta janela é uma finta, é uma jogada no xadrez de quem a pinta e assina.”
Quando Senghor, poeta e antigo presidente do Senegal, visitou oficialmente Lisboa, propus-lhe um elaborado programa, que incluía visitas a museus e eventos culturais. O poeta africano assegurou, com candura: “Ma seule priorité c’ést de connaître Amália.” Telefonei a Maluda para interceder junto da fadista. Uma hora depois, Senghor, incrédulo e emocionado, subia as escadas da Rua de São Bento onde Amália o esperava. Estava-lhe reservada outra surpresa. Maluda apareceu com Sigrid Jahns que, na Universidade de Frankfurt, defendeu uma tese sobre Senghor, poeta e estadista. O ilustre senegalês comoveu-se: na sua frente tinha Amália, o seu ídolo preferido, uma pintora de renome e uma erudita alemã que sabia tudo da sua vida
Foi por essa época que uma nova e inesperada faceta de Maluda emergiu subitamente: a de empresária. Começou a editar múltiplos, a tratar da imagem, a interessar-se por dinheiro. Dava entrevistas, aparecia em programas de televisão, a RTP ia à Rua das Praças filmar o dia-a-dia da pintora e as badaladas reuniões nocturnas com os amigos. Com um toque de Midas, tudo em que se metia dava lucros; Helena Arnoso organizou um grupo para ir num cruzeiro às Baleares. Uma noite, Maluda entrou no casino do paquete, jogou duas ou três vezes, trocou as fichas e informou-nos, com um enorme sorriso, que já tinha pago a viagem. Apesar de tudo, continuava a ter a maior relutância em falar de preços, tarefa que deixava à Maria do Carmo, à Helena Arnoso ou ao Fernando Raposo de Magalhães que, ao fim da tarde, passavam pelo atelier e informavam os adquirentes – que esperavam a sua vez, inscritos em longas listas – do preço da obra em que estavam interessados.
Na época das janelas, Maluda jantava, muitas vezes, a convite de Ana e João Braga numa casa de fados chamada Páteo das Cantigas. A certa altura, cansada do longo dia de trabalho, enfastiava-se com as cantorias e ordenava, peremptória: ”Calem-se que quero dormir.” Acontece que, muitas vezes, quem estava a cantar era a própria Amália. Mandar calar Amália era, aliás, um tique de Leonor Asseca sob o pretexto que ela desafinava. O mais intrigante é que Amália se calava mesmo.
Na Rua das Praças havia noitadas a propósito de tudo e de nada. Os Jahns vinham da Suíça expressamente para jantar; Maluda ia a Lausana aos anos deles. Havia pessoas que se inscreviam para conhecer Maluda e o seu grupo: Manuel João da Palma Carlos, presidente da RTP, foi um deles. António Alçada Baptista foi outro dos candidatos. Fernando Raposo de Magalhães, a quem se reconhecem múltiplos talentos nos quais não se inclui nem a voz, nem o ouvido, monopolizava as cantorias, não obstante a presença de Amália. Perante tal audácia, António Alçada perguntou, atónito: ”Quem é este tenor maligno?” Maluda e Leonor Asseca cantavam, com frequência, a duas vozes; sempre que Amália queria juntar-se ao canto, Leonor atalhava: ”Ó Amália, cale-se que você desafina.”
Quando Maluda tinha uma pequena depressão, procurava a casa de Maria Luísa e Fernando Raposo de Magalhães, ou viajava com eles para Nova Iorque, hospedava-se no hotel Algonquin e admirava, com alguma apreensão, o rugido de uma cidade que não dorme, um trânsito que não pára, uma multidão que nunca se escoa, entre edifícios de que não se vê o topo. Quando o Fernando se sentia desencorajado, procurava a pintora que o incitava a pintar, o que aliás ele fez, obedientemente, apresentando, em duas exposições, o resultado da terapia recomendada por Maluda.
Linda e João Raposo de Magalhães e Maria João Seixas e Fernando Lopes eram fiéis da Rua das Praças. A cumplicidade inigualável entre Maluda e Maria João vinha de longe, das margens do Índico, manifestava-se em quase tudo: partilhavam as memórias, os gostos, o riso, a ida ao Festival de Cannes, as entrevistas na televisão. Juntas, cantavam sem cessar modinhas tradicionais. Cheguei a pensar expatriar-me para não ouvir ”Ó rama, ó que linda rama”. Maluda, Manuel Bobone e Raul Indipwo tocavam viola e quase toda a gente cantava, o que acontecia noite sim, noite não, até altas horas da madrugada.
Maria do Carmo Vaz Pinto vinha, ao fim da tarde, tocar viola e cantar, muitas vezes com a cunhada, Maria João Sousa Machado, uma das poucas amigas que não cultivava o canto. Henriqueta Damas Mora vivia em Paris e aparecia para cantar. Na adolescência, Maluda acreditou que se dedicaria à música. Os factos provariam que não era um presságio disparatado.
Por encomenda da Comissão Europeia e do Ministério da Cultura, o maestro António Vitorino de Almeida compôs e Maria do Carmo Vaz Pinto cantou a obra “Gaudeamus.” Depois que apresentaram o concerto em Lisboa, foram a Viena, Macau e por fim à Bélgica. Maluda e Sigrid Jahns não podiam faltar ao espectáculo em Bruxelas a que assistiu a rainha Fabíola. Ficaram em casa de uns amigos holandeses; quando lá entrei, deparei com Portugal, de norte a sul, pendurado nas paredes. Eram serigrafias de Maluda.
Nunca em Lisboa houve um refúgio mais acolhedor, mais amável e divertido e, também, onde se fumasse e bebesse mais do que a casa de Maluda, equipada com uma máquina industrial de fazer gelo. Depois de cada jantar, Ana, a paciente e dedicada empregada, tinha de dispor das garrafas de vinho e de whisky que se alinhavam, como soldados destroçados, pela cozinha e pela marquise. Em 1975 a mãe de Maluda radicou-se em Lisboa. Os seus caris levavam o Ruy Cinatti a dizer coisas enormes, declamar poesia e concluir que o caril se deve comer em respeitoso silêncio.
Ao fim da tarde, quando as memórias se convocam, Maluda e os amigos contavam histórias do Polana, do Xai Xai e de Inhambane, dos safaris da Gorongoza. Por comparação, a vida na Europa afigurava-se sensaborona. Em 1981, fui pela primeira vez a África. O avião que transportava o Presidente Eanes em vista oficial à República Popular de Moçambique fez uma escala técnica no Cano; assim que a porta se abriu, rendi-me ao envolvente bafo africano. Levava uma carta de Maluda para uma amiga de infância, Olga Donato, casada com um dos ministros de Samora Machel. No banquete oferecido pelo general Ramalho Eanes, no Hotel Polana, entreguei a missiva com cuidados próprios de novela de espionagem. Nessa época, o medo de represálias amordaçava toda a gente. André Gonçalves Pereira, ministro dos Negócios Estrangeiros, ficou instalado numa casa perto do Polana que fora de João Raposo de Magalhães. Pendurado em local do maior destaque, havia um óleo de Maluda. Samora Machel veio a Lisboa retribuir a visita. Foi à Fundação Calouste Gulbenkian inaugurar uma exposição sobre a Ilha de Moçambique, organizada para promover a sua inclusão na lista do património Mundial da UNESCO. Victor de Sá Machado, administrador da Fundação, apresentou Maluda ao presidente moçambicano. Num gesto teatral, Machel convidou Maluda a visitar o Maputo. Voltou efectivamente a Moçambique mas a convite de Sérgio Kamal. Machel morreu num desastre suspeito de avião. O sobrinho Carlos Ribeiro e eu acompanhámos o reencontro de Maluda com as terras onde desabrochou para a pintura.
Falta conquistar o mar que é nosso
Depois de 1974, Moscovo e Cuba, onde tinham sido doutrinados muitos quadros africanos, enxamearam de militares e peritos de países do Leste os novos estados independentes de língua oficial portuguesa. O império soviético viria a cair de podre e, obviamente, desmembrou-se; em 1989 o muro de Berlim ruiu; o regime repressivo seria, simbolicamente, sepultado sob as pedras da muralha que dividia o mundo em dois hemisférios incomunicáveis.
Maluda foi com Sigrid Jahns e Maria do Carmo Arnoso a Praga celebrar uma nova etapa em direcção à libertação de todas as peias. Sob a ditadura nazi, as irmãs mais velhas de Sigrid tinham sido confiscadas à família e, a pretexto de serem arianas e gémeas, internadas numa instituição para superdotados.
Quando Maluda achou que era tempo de redecorar a casa, encarregou Rita e Miguel Almada de o fazer. Foi nessa altura que pintou uma série de quatro frutos, impondo um interregno na sua pintura de formas deliberadamente ascéticas e rigorosas para pintar uma romã, um ananás, uma anona e um kiwi voluptuosos, provocatórios, quase licenciosos. Os frutos desventrados mostravam os segredos mais íntimos da sua natureza: um ananás de polpa solar que se coroa a si mesmo, como os reis taumaturgos ou os poetas, com uma auréola em tom de esmeralda; uma romã, atributo de Atena, deusa da sabedoria, que mostra as bagas cor de labareda; a anona, combinação perfeita de luz ocre e negra, serena e enigmática, deixa cair sementes que são diamantes pardos; o kiwi revela lascivamente o verde imaturo da sua carne sumarenta.
Na Rua das Praças surgiu um cenário magnifico com peças assinadas de mobiliário, pratas, tapeçarias, opulentas cortinas que emolduraram a imensa janela sobre o Tejo como uma tenda árabe e uma casa de jantar com paredes forradas a seda onde cintilava o fabuloso quarteto de frutos pintado por Maluda.
Como se a nova ordem mais clássica e mais burguesa que reinava na Rua das Praças não se coadunasse com o espírito vagabundo e inquieto de Maluda, a pintora adoptou Salvador e Bernardo, dois felinos caprichosos, que deixaram a marca dos seus instintos mais selváticos pelos quatro cantos da casa.
As malhas que o império tece são por vezes inesperadas. Maluda seria convidada para trabalhar em África na qualidade de europeia. A pintora errante partiu para Lagos, na Nigéria, com pincéis e telas para fazer o retrato do chief Lawson, alto responsável dos petróleos, amigo de Sérgio Kamal. Viajante compulsivo, este acompanhava Maluda a África e seguia para Londres, Paris ou Nova Iorque. Maluda trabalhava quando o nigeriano tinha tempo para pousar. Passava dias solitários, sem grandes ocupações. O mesmo aconteceu em Libreville, onde fez o retrato do ministro dos Petróleos do Gabão e da Sr.ª M’Butzit. Farta de estar só, voltou para Lisboa; Fernando Raposo de Magalhães pousou para o corpo do ministro. Com Maluda e Sérgio Kamal, fui ao Gabão à vernissage dos retratos. Passámos o fim-de-semana em Abidjan, na Costa do Marfim. No átrio do hotel, havia belíssimos painéis dedicados ao lagarto, animal sagrado; a piscina era frequentada por franceses e enormes lagartos, vivos e atentos, que inspeccionavam as senhoras detidamente, sem nenhum pudor. Para beber o seu gin tónico em paz, Maluda persuadiu os lagartos a fixarem a atenção nas francesas. Em Libreville, os M’ Butzit – ele tinha passado para a pasta da Justiça – deram um tratamento real a Maluda. Ao jantar de javali cozinhado de dez diferentes maneiras, acompanhado de champanhe, o ministro gabonês advertiu-a da existência de numerosos candidatos a retratos. A pintora declinou: dava por concluído o trabalho na costa ocidental de África.
Voltou à Índia de onde saíra em 1945, com um grupo onde se incluíram Maria do Carmo Arnoso, Teresa Schmidt e Piedade Castelo-Branco; esteve em Nova Deli, Agra, Cachemira no norte da Índia, e em Goa. Voltou desiludida, queixou-se que a terra natal continuava adormecida, a agência de viagens não cumpriu o programa previamente estabelecido, e até um dos motores do avião, onde viajou no interior da Índia, se incendiou.
Em 1994, Lisboa, na sequência de um longo processo de candidatura disputado em Bruxelas, foi Capital Europeia da Cultura. Renovado o tecido urbano e os equipamentos culturais, Lisboa apresentou-se ao mundo embelezada e com um vasto programa de eventos. O Centro Cultural de Belém acolheu uma exposição especial para homenagear a capital que nesse ano presidia à Europa das culturas. Aníbal Cavaco Silva, Primeiro-Ministro, abriu oficialmente a mostra composta por mais de sessenta telas que revelavam mil ângulos regenerados da luminosa cidade fundada por Ulisses e pintada por Maluda. Os amigos acompanharam a cerimónia. Sigrid Jahns veio da Suiça. Milhares de visitantes, nacionais e estrangeiros, contemplaram Lisboa e o Tejo que a fecunda através do olhar de uma menina nascida em Goa, crescida em Moçambique, educada em Paris e ancorada em Portugal.
Nesse dia, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, tive a sensação clara que o ciclo das passadas glórias se encerrava para sempre; abria-se um tempo novo para descobrir o mar que é nosso: as potencialidades que se alojam entorpecidas no interior de cada um e que carecem de ser actualizadas. Maluda procurou, sem cessar, essa via.
Na década de oitenta descobri a Índia e regressei tocada pela espiritualidade electrizante desse mundo mais sábio, mais fundo, interior. Maluda decidiu que era tempo de revisitar a sua terra. Seria a última. Num grupo que integrava Helena e Manuel Bobone, Nina Espírito Santo e Isabel Rocha e Mello, partimos para Goa via Londres, Manchester e Dubai. Após quase vinte e quatro horas de viagem, Maluda, tão fresca como os frutos que pintou, iniciou, de imediato, a aventura goesa. Foi uma semana em que reavaliou as suas origens com um olhar benevolente, a que não era estranho o estado de graça em que os restantes membros do grupo mergulharam.
Numa festa de casamento, animada por uma pequena orquestra, no hotel onde estávamos hospedados, um goês, ao saber da presença de Maluda, dedicou-lhe as “Cartas de Amor” de Tony de Matos; Manuel Bobone retribuiu o gesto de carinho; numa demonstração de familiaridade com a cultura local, subiu ao palco e cantou, em concanim, o “Mandó da Despedida”, secundado pelos noivos e pelos convidados. No meio da inexcedível amabilidade dos goeses, que nos visitavam e ofereciam comida, imersa no calor espesso, húmido e perfumado de especiarias, do grasnar dos corvos, da atmosfera carregada de magnetismo que nos faz chorar de saudades ainda que estejamos lá, Maluda, em silêncio, quase em segredo, fez as pazes com a terra onde nasceu.
Com o colapso do comunismo, os soviéticos retiram-se de África. Sérgio Kamal podia regressar ao seu país. Era tempo de Maluda saudar o estado soberano de Moçambique. A pintora, Carlos Ribeiro e eu viajámos para o Maputo e fomos depois ao arquipélago do Bazaruto. Sérgio Kamal recebeu-a no aeroporto e, inevitavelmente, conduziu-a ao Hotel Polana, inteiramente reconstruído e redecorado, perfeito, com a piscina, as palmeiras, o bar onde Sérgio imperava e o Índico azul cinza ao fundo.
Foi simples para Maluda reatar as relações, avivar as memórias, rever a família, a prima Maria da Graça casada com João Dionísio dos Santos, pessoas corajosas, independentes, de imaculada reputação. Jantou em casa de Sérgio Kamal e do irmão, comandante da LAM, companhia aérea da Moçambique; foi aos restaurantes da Feira, onde havia vinho de Tomar, reviu a casa onde morou com os pais, o atelier, o local onde moraram Maria João Seixas e João Raposo de Magalhães; viu criações de crocodilos, foi ao teatro admirar o talento dos actores moçambicanos que já podiam expressar-se em liberdade; à noite, invariavelmente, o Primeiro-Ministro de Moçambique jantava connosco no Polana. No final, peregrinámos por cada uma das abençoadas ilhas do Bazaruto.
No regresso ao Maputo, Sérgio Kamal tinha adoecido; o Primeiro-Ministro e o Presidente da República mandavam emissários inteirar-se do seu estado de saúde. Hoje, no bar do Polana, figura uma placa a recordar a memória de um dos mais queridos e inesquecíveis filhos de Moçambique.
Quando a Exposição Internacional de Lisboa, no verão de 1998, foi inaugurada, Maluda, Helena Arnoso e eu instalámo-nos num hotel no Parque das Nações para percorrer mais de uma centena de pavilhões, de uma ponta a outra. No de Moçambique, Maluda, a artista nómada, tropeçou com o pintor Malangatana: as memórias do Índico vieram à baila. No Parque das Nações, Maluda e Helena despediam-se do vasto mundo; eu despedia-me de duas amigas que viviam os últimos meses de vida.
Na missa conjunta do mês de Maluda e do sétimo dia de Helena Arnoso, em Março de 1999, a família e os amigos, consternados, lamentavam a morte tê-las levado quase ao mesmo tempo. Na Índia cada ser é visto como actor, autor, director, palco e luz da sua própria prestação que prossegue, vida após vida, até atingir a perfeição. Desta vez, Maluda e Helena escolheram experimentar e evoluir num ciclo de vida feito, quase sempre, em conjunto. Saíram de cena, em simultâneo. Seis meses mais tarde, Amália juntou-se à amiga de toda uma vida.
O Presidente da República, Jorge Sampaio, condecorou a pintora, já depois de esta ter sido operada, com o Grande Oficialato da Ordem do Infante. Porém, se bem a conheci, a maior recompensa que teve na vida foi o privilégio de pintar como se de uma missão se tratasse.
Maluda soube que o fim se aproximava muito antes de os médicos lhe declararem um tumor no pâncreas. Eu acreditava que ela era imortal; ela confessou estar farta de viver, ambicionava a morte. Abandonou a paisagem, o retrato, as frutas, os selos, as janelas. Dedicou-se, de corpo e alma, a desenhar um baralho de cartas; coube-me fazer as negociações para ser executado e editado nos Estados Unidos, pela Kem Cards. Uma relação de amizade iniciada no Restelo, que circum-navegou pelo tempo e pelo mundo, não podia ter outro desfecho. As cartas, cuja génese se perde na noite dos tempos, são um intricado universo de símbolos sobre os arcanos que presidem ao sinuoso itinerário do ser humano que, de jogo em jogo, de cartada em cartada, aprende a conquistar dimensões mais elevadas.
Despojou de artifícios a figuração dos quatro naipes para os valorizar como elementos operativos do despertar da consciência; devolveu autoridade ao rei, dama e valete, removendo os adereços inúteis; criou um joker inspirado no símbolo sagrado de África, o lagarto. Fez um baralho minimalista, conciso, rigoroso como se nesse acto de despojamento fizesse também a avaliação da sua vida e descartasse, um a um, os passos escusados, os gestos desnecessários, as escolhas erradas, o pensamento retrógrado dos Velhos do Restelo para se focar na essência da vida que flúi de algo perfeito, luminoso, harmonioso. Maluda buscou, através da música e da pintura, alcançar essa portentosa mina.
Lisboa, Janeiro 2008

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