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sábado, 26 de maio de 2012

Públicado pelo jornal, O Mirante - Fernando Amaral, Mestre Alfaiate

O alfaiate do traje português de equitação

Cada fato completo feito na alfaiataria de Azinhaga custa cerca de 750 euros.
Fernando Amaral já está reformado, mas aos 81 anos continua a costurar os melhores trajes, os mais perfeitos, da zona da Golegã. O pequeno gabinete de alfaiataria, situado na Azinhaga, está hoje a maior parte do tempo fechado, porque o senhor Amaral prefere passar os seus dias em Peniche e dedicar-se à pescaria. No entanto, com o aproximar do São Martinho e da Feira do Cavalo, surgem as encomendas para criar novos trajes de equitação à portuguesa. Os clientes são sobretudo amigos ou conhecidos de outros tempos que insistem em ir ao melhor costureiro – “Quer alguém que lhe fale sobre o traje? O melhor é ir ao sr.Amaral”, dizem os entendidos.
A entrada da casa pequena, situada junto à igreja matriz da Azinhaga, está tapada por uma cortina de contas. Lá dentro surgem duas bancas enormes, alguns cabides, dois ferros de engomar dos antigos e duas máquinas de costura, cada uma com mais de quatro décadas de vida. “Ia comprar umas novas para quê?”, reflecte o velho alfaiate. Para esta época em que se costuram novos fatos chamou o amigo, de 65 anos, também alfaiate na reforma, para dar os jeitos nas virolas, já que as mãos do idoso estão cheias de artroses. “Eu já não consigo fazer tudo”, diz a sorrir.

Fernando Amaral já não costura como antigamente. Na década de 60, chegou a ter 750 clientes só na Golegã. As restantes encomendas chegavam-lhe de todos os pontos do país – “Cheguei a vender muitos fatos para o Porto”. Para fazer face a tanto trabalho, empregou 12 pessoas e houve alturas em que passou 68 horas sem dormir. “Até chorava. Era muito duro”, recorda. Perante tanto trabalho decidiu que tinha que ser pago pelo serviço. Bem pago. E foi assim que começou a ser conhecido por ser careiro. “Chamavam-me ladrão. Mas eu não obrigava ninguém a cá vir”.
Tempos que já lá vão. O trabalho já não é tanto e nem podia, mas os preços continuam a ser elevados. “Hoje as pessoas preferem ir ao pronto-a-vestir onde compram trajes e fatos a 40 contos. Eu aqui não levava menos de 160”. Cada peça leva muitas horas a fazer. Umas calças de bombazine, justas para usar com jaqueta, são capazes de demorar mais de um dia. Já a jaqueta, mais rebuscada na forma e na exigência, pode levar uma semana. O amigo José Ribeiro, o amigo costureiro, herdeiro da agulha e da linha, faz os últimos acabamentos numa jaqueta de abafo, de pura lã castanha, que irá servir para tapar o frio que já se nota nas planícies ribatejanas. “Este veste-se por cima da outra jaqueta. É só para tapar o frio”, explica Fernando Amaral.
O traje português usado pelos cavaleiros lusitanos, antes aos domingos e hoje nos dias das grandes feiras e festas, é composto por calças justas encimada por uma cinta destinada a proteger a zona dos rins, camisa branca, colete justo ao corpo e jaqueta simples completa nas costas, ao contrário da espanhola que é arqueada por causa do tipo de sela usado no país vizinho. As cores vão do preto ao castanho, sempre sóbrias. O chapéu de aba redonda não a tem revirada, como em algumas zonas do país. Para as amazonas, mantém-se a jaqueta, o chapéu e a camisa, mas trocam-se as calças por uma saia comprida, de cintura alta apertada.
Fernando Amaral vira as páginas do livro sobre o “Traje Português para Equitação”, que lhe foi oferecido pelo autor e mostra as várias fotos apontando os defeitos. “Olhe mais uma mal feita. Esta não é minha. As minhas jaquetas não quebram, não mostram vincos. Ficam justas e direitas”. Na página seguinte surge outra foto, desta vez com jaqueta feita na alfaiataria da Azinhaga: “Está a ver?!”.
Fernando Amaral é beirão, de Midões (Tábua, Coimbra). Foi parar à Azinhaga por causa do pai, que chegou a capataz numa quinta da região. Aprendeu o ofício depois de ter terminado a quarta classe e por ali ficou. “Diziam-me que eu tinha muito jeito e chegaram a convidar-me para ir trabalhar para Lisboa, mas eu não gostava daquilo. Como não tinha ambição, fui ficando, mas não devia. As pessoas não gostavam de mim. Diziam que eu era fascista… mas eu era só anti-comunista”.







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